25 de julho de 2011

familia perdida, ponto de fuga

                                                                  CAPIULO I
   Era ela uma criança, suas mãos eram pequeninas e os seus cincos dedos faziam quase dois dos meus cinco. Matilde era o seu nome, e encontrava-se no quarto ao lado do meu sentada em cima do tapete a olhar para a única parede branca que tinha, com os lápis de cera de todas as cores ao seu lado, punha-se a imaginar que desenho iria fazer, ou que palavras iria escrever - é verdade que ainda não sabia muitas, pois ainda era muito pequenina - mas, das poucas que sabia, alguma coisa iria lá estar escrita. Pegou nos lápis com uma mão, e, com a outra ia tirando a cor que queria e assim dava inicio ao seu desenho que posterioremente tinha imaginado na sua pequena imaginação. Estava eu no quarto ao lado a olhar para o nada quando no silêncio do dia comecei a ouvir os lápis a arranharem na parede, decidi ir ter com ela, não fiz muito barulho ao entrar para não a incomodar no seu processo de criação, pus-me atrás dela e admirava cada linha recta e curva que punha com um ar tão decidido como o sol e a lua quando chega a sua hora de se mostrar num lado do mundo. Chegava ao fim do seu pequeno desenho na parede branca do seu quarto que tinha demorado uma simples hora a fazer quando a minha pequena irmã Matilde, coloca com suas lindas mãozinhas os lápis de cera no chão e admirando o seu desenho diz:
 - Irmã, gostas do meu desenho?
No meio de um pequeno riso e um estalar de dedos eu não lhe respondo com o movimento dos meus lábios e com a vibração das minhas cordas vocais, ela já sabia que o meu olhar valia isso tudo, ela sabia que no meu olhar estava escrito aquilo que ela colocara na parede com seus erros próprios da idade, mas mesmo assim decidi expressar-me oralmente, para mais tarde ambas recordar-mos as nossas palavras, então baixei-me até há sua altura, indireitei as costas e disse muito subtilmente:
 -Tens o melhor desenho do mundo feito na tua parede, e mana eu também gosto muito de ti.
Ela riu-se com os seus olhos azuis a brilharem de felicidade e correu pelo resto da casa fora gritando aos sete ventos que tinha feito mais um pequeno desenho na sua parede do quarto.
  Enquanto a minha querida irmã corria pela casa como se não houvesse amanhã, eu deitei-me na minha cama e fechei os olhos imaginando um dia ser eu que escrevia os romances que a minha mãe lia ou os jornais que o meu pai comprava todos os dias logo de manhã. Nessa pausa, em que o escuro invadia a minha mente, um bater forte me levantou e fez a minha irmã gritar invadiu a minha pequena casa que em tempos teve em silêncio profundo, tinha sido a porta a bater, depois de me ter acalmado do susto olhei para o relógio que estava na minha mesinha de cabeceira e vi que pelas horas só podia ser o meu pai irritado com o futebol e com umas vinte cervejas em cima - também o cheiro que o acompanhava não me fazia mentir - não tem remédio aquele homem que me deu a vida, enquanto vagueava nestes meus pensamentos a minha irmã entrava-me pelo quarto com os seus trezentos peluches e com a sua cara de assustada, ambas sabiamos que quando o meu pai chega com as suas vinte cervejas, coisa boa não vinha, e tinhamos razão.
  Com ele, veio um bando de sons que nos invadiam a alma e nos acertavam no coração como flechas em fogo que em épocas existiram nos tempos medievais, a minha irmã estava debaixo dos meus lençois a fazer uma força maior do que ela e do que o próprio mundo e a cantarolar para que aqueles sons não invadissem o pouco dela, eu tinha de ir ver o que se passava, mas também não podia deixar a pobre coitada da minha irmã que chorava e cantarolava. Decidi ir silenciosamente atrás do som que assustava uma criança e que a fazia correr para o quarto da irmã, era um som no fundo escuro do corredor, mas continuei, apesar do medo descomunal que tinha do negro eu fui, até que o som ia aumentando e aumentando e eu cerrava as mãos para me aguentar sem fugir dali a gritar, e continuava a aumentar, até que a porta entreaberta dos quartos dos meus pais e as sombras estranhas juntamente com o som horrivel e forte despertou em mim aquele ar de "É aqui que está o som maldoso que assusta a minha pequena irmã" abri calmamente e sem fazer muito barulho a porta, naquele momento os pensamentos fugiram de mim, o meu coração parou de bater a minha respiração suspendeu por momentos, os choros da minha irmã do outro lado escuro do corredor faziam-se ouvir agora com mais força, até os bichos que rastejam bem debaixo dos meus pés naquele momento parecia como um bater de uma baqueta no tambor.
   A porta tinha sido aberta e os meus olhos assistiam a uma cena de violência entre o homem e a mulher que me deram a vida, só me apercebi disso assim que ganhei consciência do que estava a ver, pois nos primeiros 30 segundos tudo parecia em câmara lenta, deixei-me ficar ali, pois não tinha forças naquele momento para dizer ao meu cerebro que mexesse as minhas pernas e os meus braços o mais depressa possivel para ir embora dali e voltar para junto da minha pequenina que se escondia debaixo dos lençóis. E assistia a cada chapada, a cada pontapé e quanto mais tempo ficava junto daquele cenário mais ensudercedor ficava aquilo, depois de tanto tempo ali e com o meu corpo mais gelado do que um iceberg, o meu pai deixou de olhar para aquele saco de boxe que se tinha tranformado a minha mãe e olhou para a sombra que se espalhava para o chão e agressivamente me olhou desde os pés até a cabeça, onde se perdeu na imensidão da desilusão e lágrimas que enchiam os meus olhos azuis, levantou-se de cima dela e a passo largo e barulhento foi até a mim e fechou a porta.
  Fiquei num momento de ignorância por breves momentos,e dirigi-me até a porta do meu quarto, enchi o peito cheio de ar, enxaguei as lágrimas e apaguei com a manga da minha camisola a desilusão que tinha aparecido nos meus olhos por aquele homem que não considerava ninguém depois do que vi, fui até há minha irmã que se encontrava na mesma posição desde o momento em que a deixei e agarrei-me a ela para a confortar com a maior força que tinha, mas a sua inocência fala mais alto que a sua cabeça e pergunta-me com um ar ingénuo e puro :
 -O que viste? O que ouvis-te? Irmã, o que aconteceu?
 - Porque haveria de ter acontecido alguma coisa Matilde? Não se passa nada, confia em mim, irã tudo correr bem.
 -Está bem mana eu confio.
E depois destas palavras pouco sábias quer de mim quer da minha irmã ela adormece ao som do meu pulsar acelarado e do meu ar preocupado, e depois de o nosso quarto ter entrado num silêncio não muito profundo, voltamos a ver a claridade que invade o corredor, o bater forte que bate contra as tabuas do chão e o bater forte da porta da rua, para terminar a onda violenta de barulhos estranhos com cenários como aqueles que aparecem nos filmes e que posteriormente era o meu pai que me tapava os olhos nessas cenas, ouve-se as últimas inspirações e expirações de um corpo exausto e eu pego na minha pequena irmã pela sua mão meiga e vou ao encontro daquele som de despedida.
  Voltei a gelar e a última coisa que senti na minha mão foi a lágrima quente da minha irmã e o aperto de ternura, de medo, e de confusa que a sua pequena mão fazia na minha grande mão, voltei a não me mexer durante outros 30 segundos e só consegui perceber que aquilo era realidade quando senti um pequeno beliscão no meu braço feito pela minha irmã ai sim, vi e entendi ....
  Estavam dois corpos á porta de um quarto frio, dois corpos que viram deitado naquele chão o corpo da mulher que as pos neste mundo, mulher que foi espancada até á morte pelo seu marido não mais pai daqueles dois corpos que estavam á porta daquele quarto que outrora tinha servido para partilharem momentos numa familia que depois daquele momento deixou de existir.

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