8 de janeiro de 2012

CARTA Nº CINCO, oito de janeiro de 2012

por muito que não ligues és o único com quem consigo desabafar, e sei que não queres saber minimamente do que me aconteceu, acontece ou pode acontecer, mas eu conto-te à mesma só para ficar aliviada, e não cair na tentação de te pedir auxilio outra vez, para também conseguir enfrentar os dias e as noites sem ti, sem a tua presença. queria-te ter contado há mais tempo, mas não consegui, por isso agora que tenho tempo para me dedicar a ti mesmo sabendo que não fazes o mesmo, conto-te o que se passou ...
finalmente aprendi como um espaço fechado pode trazer várias emoções, aprendi o significado de um olhar e de um sorriso num acto que eu não esperava conseguir ter. estava num centro comercial perto da minha casa, estava à espera que se despachassem e eu estava sentadinha no meu canto carregada quase até à cabeça, quando dispersa nos meus olhares ao longo de todo o espaço que me rodeava, olho para o lado e no mesmo instante que olho vejo o oposto de mim, pessoas sozinhas e tristes, pessoas que precisam um pouco mais de atenção e um sorriso. lembro-me da senhora que estava comigo, meti-me a falar com ela mesmo não a conhecendo, mesmo que ela não me ouvisse direito, e ficámos ali as duas a olhar uma para outra, senti que era o meu futuro, baixinha de olhos azuis e cabelo branco sorridente, duas gerações diferentes mas algo em comum.
foi algo único, não percebo porquê, mas no pouco tempo que lá estive sentada vi duas formas de viver, excluindo todas as outras que por lá passeavam, desde casais felizes sós ou com os seus filhos, desde senhores idosos a amarem-se como no primeiro dia, a pessoas solteiras e a amigos. não foi a primeira vez que entrei num centro comercial, mas foi a primeira vez que me pus tão pensativa num. a tristeza permaneceu em mim quando foi altura de ir embora, e deixar aquela senhora encantadora ali sentada à espera do marido. sabes, eu sei que isto não te interessa nem um pouco, mas tu não tens noção do brilho daquela senhora, da felicidade que tinha à sua volta mesmo estando doente, assim me apercebo que tudo o que por vezes sinto é em vão, porque pessoas que se encontram numa situação bastante pior à minha continuam a sorrir, a falar, continuam a viver a vida mesmo que seja curta, mesmo que estejam no seu intimo tristes e sozinhos. isto tudo me leva a pensar em tudo o que já tive, em tudo o que já disse, o olhar daquela senhora era puro, era diferente de todos os outros, e não sei se é pela experiência de vida que teve que ganhou um gosto pela vida, ou se é mesmo assim, linda e sorridente.
continuo com este pensamento mesmo depois de ter passado alguns dias desde aquele encontro, mudou-me, fez-me olhar para mim e ver que estava errada, que tudo é pormenores, que a importância da vida não é assim tão importante se não soubermos o que é a vida, e o que nela há de importante. aprendemos todos os dias, aprendemos a errar, a gostar, a odiar, aprendemos que um olhar move mundos nem que esse mundo seja apenas o nosso. por isso não, não irei esquecer aquela senhora e sim aprenderei com aquele olhar, e lembrarei-me desse mesmo olhar quando pensar que o meu pequeno e fútil mundo está a desabar, e verei que hoje é mau mas amanhã é bom, e que no futuro saberei sorrir e brilhar do mesmo modo que fazia aquela humilde senhora mas que era muito encantador.

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