Eu sou o exemplo que ninguém quer seguir, eu sou a pessoa que parece certa mas que já errou, que viveu por uns tempos no escuro da vida e que aprendeu a subir e a descer vezes sem conta, eu sou uma pessoa humilde que passou por pouco a comparar com muitos, mas já fez tanta merda que agora é impossivel de esquecer e ainda bem!
Todos temos más fases, todos sofremos, e não é por sermos mais novos ou mais velhos que o sofrimento cresce ou diminui, isso é mentira, apenas cabe a cada um saber como lidar com a sua dor, e eu escolhi a minha maneira, lado positivo? Podia ter sido pior, mas tambem podia ter feito algo de diferente, que não me magoasse e não magoasse os outros, algo útil, aquilo que eu fiz podia ter tido consequências graves!
Houve uma altura na minha vida em que tudo estagnou, nada servia, nada acontecia, era tudo tão vulgar que já nada fazia sentido, então a minha parte racional começou a falhar, tudo o que eu sabia que não devia fazer eu esqueci, e entrei num periodo com periodos bons e maus, cedi! Não tive pena de mim, do meu corpo, e, não poupei cada palavra menos boa que disse a mim mesma, auto-destrui-me, mas mesmo assim, quem olhasse para mim dizia que eu era feliz, que a mim nada me atingia, parvoice, sempre pensaram isso e acho que sempre vão ter essa ideia, boa actriz não? Desejei a morte, pensei na fuga, perdi a felicidade, conheci a tristeza, enganei-me sobre muita coisa, aprendi muita coisa, conheci-me!
Um dia, um daqueles dias mesmo fortes, negros, em que nada se liga entre si porque não há nada para ligar e onde tudo é desesperante, a minha mente cedeu, a dor era demasiado forte para um corpo e alma totalmente apagados, não aguentava e tudo desabou! A partir desse dia tudo ficou a preto e branco, nada fazia sentido e os meus olhos desistiram de procurar as cores bonitas que o mundo tem. Naquela altura eu só pensava no que poderia fazer para tudo encaixar, como um puzzle com todas as peças, feito por alguém suficientemente inteligente para não falhar nem uma peça, pus a mim mesma a tipica questão: Será que mereço mesmo isto?
A mente enganou-me, o coração iludiu-me e o resto que sobrava de mim deixou-se levar por todas as coisas que a minha cabeça inventava, o problema era meu e não do mundo nem das outras pessoas! Queria que o mundo compreendesse o que sentia, queria que houvesse alguém que me apoiasse, estava tão fechada no mundo em que me tranquei a sete chaves que nem me apercebi que eles estavam lá, eu é que não!
Tentei ignorar, tentei esquecer, tentei compreender, e depois vi que estava perdida num mundo onde eu própria me coloquei, e onde não sabia o mal que me esperava, fui eu que fiz tudo! Desesperei, não vi mais a saida e a única luz que lá existia era impossivel de alcançar, tinha de aprender sozinha para puder chegar lá!
E vivi, primeiro a sensação de vulgaridade, segundo a sensação de abandono, terceiro a raiva e quarto a mutilação, e sim, podem parar de pensar que é uma história porque não é, é parte dum eu, que nem eu conhecia, a racionalidade afastou-se daquele metro e cinquenta e nove de pele, ossos e músculos, eu, apenas tive capacidade de pegar em algo que cortasse e rasguei as células que formam a pele, sempre que o fazia punha linkin park aos altos berros nos meus ouvidos porque não queria ouvir nada, queria apenas aliviar a dor com a dor que não se sente, a partir esse dia começou o inicio de um vicio que só acabou agora. Achavam-me maluca, mas eu sentia liberdade, nada me fazia derrubar depois de me cortar, mas no dia seguinte, havia o sentimento de culpa e a dor, sim dói e é dificil de nos mexermos.
Nos tempos a seguir não havia dor que me tocasse, lágrimas que caissem, perfeito encontrei a cura! Cura? Imbecil! Achei mesmo que aquilo me curava! Depois da primeira vez era impossivel não o fazer sempre que me sentia...Melhor, não me sentia, os cortes não doiem, nada dói enquanto a lâmina trespassa a nossa pele, acho que era por isso que o fazia, para voltar a sentir! Foram três vezes, mas não se limitava apenas a um corte, hum hum, eram muitos!
Vi, ouvi e li a desilusão dos que se preocupavam comigo, senti a minha desilusão, desci na minha própria consideração, classifiquei-me como lixo, eu tinha-me tornado no oposto daquilo que sonhara para mim quando era pequenina. Tive de sentir, tive de chorar, tive de falar e escrever, tive de aprender tudo, mas sozinha, senti necessidade disso, era demasiado dependente dos meus amigos, era uma criança!
A última vez que peguei numa lâmina, foi há um mês, cortei-me de forma brutal, foi a pior de todas, sem dúvida!
Depois dessa vez, devolveram-me a minha parte sã, o meu racional, e aos poucos o meu corpo, a minha mente e a minha alma começaram a curar-se, e hoje, passado um mês, sou uma pessoa totalmente diferente, encontrei as chaves com que me tranquei, cheguei à luz que pensava ser impossivel, os meus olhos já sabem as cores e eu sei vê-las no mundo!
Ganhei um novo vicio, escrever, e conheci-me, desprendi-me dos meus amigos o suficiente para viver a minha vida! A minha mentalidade mudou, a forma de olhar para as coisas e enfrentá-las também, cresci!
Pode não ter sido a melhor forma, pode até nem ter sido muito mau e eu esteja a exagerar, mas na minha opinião foi terrivel, e se digo que foi terrivel é porque o senti e o fiz, e não desejo nem ao meu pior inimigo, tive de abdicar muito tempo do meu tempo com isto, tive de esquecer tudo e estar aberta para o meu novo eu, abri mão de um pedaço do meu corpo enquanto tudo se modificava.
Hoje sei um pouco o que é sofrer, hoje sei o que é ter de pegar numa lâmina e cortar até sangrar, hoje sou feliz. Gosto de tudo no mundo agora, até da coisa mais pobre que pode existir eu gosto, porque isso faz-me sentir viva, faz-me sentir útil porque dou valor a coisas insignificantemente importantes, não tenho remorsos, não tenho vergonha de mostrar o meu braço e que vejam aquilo que eu fiz a mim mesma, pus um pedaço do meu corpo cheio de cicatrizes, e isso marca uma fase da minha vida que não faço tensões de esquecer. Sei que muitos vão ter pensamentos maus sobre mim e que me vão julgar, pois julguem, mas julguem com cabeça tronco e membros pois têm de ver porque o fiz e como isso me tornou, não é desculpa, não é modo de vida, nem escapatória, é um erro mas que eu assumo! Tomo em consideração cada minuto daqueles dias e meses, porque cada minuto que passei fez-me ficar forte, fez com que arranjasse as armas necessárias para enfrentar tudo e todos, bem quase tudo e quase todos. Tenho medo do que as minhas simples palavras possam provocar na mente critica da sociedade, penso duas vezes antes de tornar público algo tão meu, muito mais meu do que todos os outros textos que escrevo, porque este é verdade, é a minha verdade. Não quero penas e julgamentos, não quero compaixão ou coisa parecida, quero que as pessoas entendam ou tentem entender aquilo que eu vivi, aquilo que eu fiz e senti, assim não farão a elas mesmas, porque sabem como é, qual é a dor e a culpa, secalhar hoje não faria o mesmo, mas secalhar se o fiz, é porque eu precisava de acordar, de abrir os olhos para a importante necessidade que tinha de viver. Eu, sou a realidade admitida de muitos, a coragem que outros não têm, sou o exemplo de um errado, eu fui o medo de mim mesma, o escuro da noite vista dos meus próprios olhos.
Quis ser o importante de muitos mas esqueci-me da importância que tinha de ter para mim, fui o pesadelo dos meus sonhos e tornei-me a realidade daquilo que a menina que eu fora sempre quis ser.

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