1 de agosto de 2011

familia perdida, um ponto de fuga

                       CAPITULO III
  Tinha passado uma semana desde o inicio do namoro entre mim e o Miguel, mas também tinha passado um mês desde a morte da minha mãe.
   Foi o reviver desse dia, a minha irmã nesse dia não pulava, não gritava nem ria, e eu, estava gelada, por dentro e por fora, os meus beijos eram secos e as minhas lágrimas molhavam as mãos dele. Eu tinha de ir aquele sitio, tinha de colocar lá uma flor e contar as novidades - porque sim, eu falo com a terra que degradava o corpo dela - mas a coragem era pouca, parecia que estava a recuperar de uma maratona, pois o meu corpo estava exausto e as minhas forças, bem essas teriam ido embora.
   Então, foi quando ouvi por cima dos lençóis onde me escondia, bem perto do meu ouvido, uma voz que já tinha sentido, uma pessoa que andava á procura e que tinha encontrado.
   - Eu vou contigo - disse meigamente aquela voz.
  E, mesmo não sabendo de quem era essa mesma voz, fez o meu corpo recuperar, fez as minhas forças voltarem. Então, depois do silêncio da voz afastei os lençóis, virei-me no sentido em que se encontrava e com os olhos vermelhos de tanto chorar, apercebi-me de que aquela voz, era da pessoa que me fez voltar a dar um sorriso, a dar valor ao azul do céu e ao verde das ârvores.
   - Agarra-me, aquece-me, pois voltei a perder-me - disse eu
   - Eu agarro-te, eu aqueço-te, eu faço com que te voltes a encontrar - disse ele
   - Agora cala-te e beija-me! - acrescentou
 Os seus lábios fortes e doces tocaram nos meus, sem vida e frios, mas assim que partilhámos aqueles movimentos, os meus olhos deixaram de derramar, as nossas mãos uniram-se fortemente, e, a dor daquele dia passou por momentos no meu pequeno esquecimento. O tempo ali tinha parado.
 O carro parou, e eu sai, estática fiquei em frente da porta daquele lugar mórbido, mas ele, colocou os braços à volta dos meus ombros e sorriu, e eu sorri, então fui dei a mão à minha pequena irmã e fomos, fortes. Cada passo parecia como as passadas que o meu pai dara naquele dia, mas o Miguel, sabia que eu me recordava daquele dia a cada passo que me aproximava do sitio em que colocara aquela mulher a dormir para sempre, e por isso, apertava a minha mão e ia-me dizendo baixinho que estava tudo bem e, que principalmente ele estava ali, a proteger-me e a amar-me.
 Eu ia ganhando mais força,e quando finalmente cheguei, o meu Mundo parou, todos tinham desaparecido e só lá tinha ficado eu e aquele paralelepipedo de pedra. Ajoelhei-me, fiz o sinal da cruz, rezei e contei tudo, sem derramar uma única lágrima, pois estava a sentir o calor daquele que me ama. Depois de tudo feito, a caixa voltou a abrir e todos voltaram, voltei a fazer o sinal da cruz, levantei-me, fui na direcção da minha irmã e disse:
 - Não penses, simplesmentee faz o que quiseres, esquece o som, as cores e nós, porque este momento é teu e tu podes chorá-lo.
 E muito séria com os olhos quase a rebentar de lágrimas ela ficou, e eu sai do caminho que a fazia chegar até à sua mãe. A Matilde gritou, chorou e riu, contou as suas aventuras e segredou com ela, depois de tudo feito tirou do bolso o que tinha feito para lá deixar, era um desenho que continha cores vivas e alegres, era segundo ela "uma maneira de lembrar à mãe que as suas filhas estavam bem"
  O Miguel colocou as flores que tinhamos trazido e muito baixinho disse:
 - Não se preocupe, eu tomo conta dela e da pequena Matilde, prometo.
  Hum, até parece que o Mundo ficou aliviado depois dessa frase, pois uma brisa suave e ao mesmo tempo forte, como um suspiro de alivio, surgiu, e os pássaros voltaram a voar e o sol a brilhar. Tinha acabado a visita que me atormentava tanto, estava na hora de regressar ao carro, a casa. A minha avó ia-nos olhando através do retrovisor à medida que nos ajeitávamos no banco - sim, a minha avó não foi ao cemitério, dizia que era errado fazê-lo pois era mãe do homem que pôs fim à vida da mulher que ali estava enterrada, mãe das suas netas- eu encostei a cabeça ao ombro dele e ele agarrou-me, olhei de baixo para cima para ele e ele veio-me com um sorriso, e eu voltei-lhe a retribuir o sorriso, voltei a dirigir o meu olhar para a paisagem que estava do outro lado da janela e adormeci.
                                                                         * * *
  Quando acordei, estava na cama, já tinha passado o dia em que fez um mês e hoje era o dia que fazia um mês e um dia, dia esse que foi iniciado pelo barulho da minha irmã a pintar outra vez a parede e a cantarolar, e com umas duas mensagens do Miguel a dar os bons dias e a dizer que me amava muito.
  Respondi-lhe à mensagem e fui à cozinha, onde tudo tinha voltado à normalidade, onde parecia que aquele dia não tinha passado só de um sonho com acontecimentos de facto, reais. A Matilde veio a correr ter comigo e quase que me entornava os cereais para cima de mim e do sofá, mete o peluche no chão, ajeita o cabelo e diz:
    - Óh mana, tenx um pejente a tua sequetária.
[Normalmente ela não fala desta maneira, mas hoje era o dia em que decidiu ser uma criança e por isso falava assim, por isso o que ela disse foi:
  -Óh mana, tens um presente na tua secretária]
  Sorriu e voltou para o sitio de onde veio a correr. Eu, levantei-me do sofá, e fui ver o que era, de facto era um presente de facto era dele, mas quando ia para o abrir, o telemóvel toca e sem antes de eu puder dizer alguma coisa ele diz:
   - Espero que a Matilde te tenha dado o recado.
   - Deu sim amor, mas ainda não o abri.
   - Então abre tótó, estás à espera do quê? - pergunta ele de uma forma muito engraçada.
 E durante o silêncio das nossas cordas vocais, eu abri-o, e aí deixou de haver silêncio, pois o cair das minhas lágrimas tornou-se banda sonora daquele momento.
    - Já o viste? - disse ele
    - Sim, mas não percebo porque me dás tantos presentes, tendo em conta que eu não te dei nenhum.
 Com uma voz indignada ele responde.
    - Achas que faço isto para me dares presentes? Para mim chega o sorriso ou o som dele quando os vês.
    - Eu amo-te Miguel - acrescento.
    - Ainda bem, porque eu também te amo e não faço tensões de te deixar.
    -Ainda bem amor, és tudo.
    - Tu também Filipa, mas agora tenho de ir, ligo-te daqui a pouco, até já.
    - Até já Miguel.
 Peguei no presente e levei-o até à cama, era uma pulseira com o nome dele e uma foto dele com a pulseira igual mas com o meu nome, tinha um texto muito bonito que acompanhava um anel que segundo ele era "amor, sei que o anel é de plástico, e sei que mereces melhor, na verdade é tirado das máquinas, mas era só para veres que uma simples e pobre coisa tem muito valor, eu amo-te"
 Foi o ponto alto do dia, aquilo que me faltava para ser feliz.
 Tinha perdido a mãe, mas ganhei o Miguel, e é verdade que não é a mesma coisa nem se compara, mas o que me conforta é que como a minha mãe me fazia feliz, ele também me faz, e isso já é muito para uma rapariga como eu.
  Eram seis da tarde e o sol começou a pôr-se, tinha como espectadores eu e ele, e o verde das árvores e o azul alaranjado do céu, ele olha para mim, sorri e antes de ele inciar a sua frase eu digo:
     - Agora é a minha vez, não fales e beija-me!
 Solta um pequeno sorriso que rapidamente é apagado pelo meu toque, eu estava completa e naquele momento não precisava de mais nada, pois tinha tudo.

 Naquele momento, Filipa, percebeu que existia felicidade mesmo depois de tudo, Filipa sabe que as cores são agora sete e não duas, e que mesmo que por momentos seja o preto e o branco, um dia as outras cores acabaram por aparecer, juntamente com tudo o que de bom pode haver. Filipa percebeu um mês depois que se acontece é por alguma razão e isso devolveu-lhe a paz que antes não conseguia encontrar.

Sem comentários:

Enviar um comentário