Foi o reviver desse dia, a minha irmã nesse dia não pulava, não gritava nem ria, e eu, estava gelada, por dentro e por fora, os meus beijos eram secos e as minhas lágrimas molhavam as mãos dele. Eu tinha de ir aquele sitio, tinha de colocar lá uma flor e contar as novidades - porque sim, eu falo com a terra que degradava o corpo dela - mas a coragem era pouca, parecia que estava a recuperar de uma maratona, pois o meu corpo estava exausto e as minhas forças, bem essas teriam ido embora.
- Eu vou contigo - disse meigamente aquela voz.
E, mesmo não sabendo de quem era essa mesma voz, fez o meu corpo recuperar, fez as minhas forças voltarem. Então, depois do silêncio da voz afastei os lençóis, virei-me no sentido em que se encontrava e com os olhos vermelhos de tanto chorar, apercebi-me de que aquela voz, era da pessoa que me fez voltar a dar um sorriso, a dar valor ao azul do céu e ao verde das ârvores.
- Agarra-me, aquece-me, pois voltei a perder-me - disse eu
- Eu agarro-te, eu aqueço-te, eu faço com que te voltes a encontrar - disse ele
- Agora cala-te e beija-me! - acrescentou
Os seus lábios fortes e doces tocaram nos meus, sem vida e frios, mas assim que partilhámos aqueles movimentos, os meus olhos deixaram de derramar, as nossas mãos uniram-se fortemente, e, a dor daquele dia passou por momentos no meu pequeno esquecimento. O tempo ali tinha parado.
O carro parou, e eu sai, estática fiquei em frente da porta daquele lugar mórbido, mas ele, colocou os braços à volta dos meus ombros e sorriu, e eu sorri, então fui dei a mão à minha pequena irmã e fomos, fortes. Cada passo parecia como as passadas que o meu pai dara naquele dia, mas o Miguel, sabia que eu me recordava daquele dia a cada passo que me aproximava do sitio em que colocara aquela mulher a dormir para sempre, e por isso, apertava a minha mão e ia-me dizendo baixinho que estava tudo bem e, que principalmente ele estava ali, a proteger-me e a amar-me.
Eu ia ganhando mais força,e quando finalmente cheguei, o meu Mundo parou, todos tinham desaparecido e só lá tinha ficado eu e aquele paralelepipedo de pedra. Ajoelhei-me, fiz o sinal da cruz, rezei e contei tudo, sem derramar uma única lágrima, pois estava a sentir o calor daquele que me ama. Depois de tudo feito, a caixa voltou a abrir e todos voltaram, voltei a fazer o sinal da cruz, levantei-me, fui na direcção da minha irmã e disse:
- Não penses, simplesmentee faz o que quiseres, esquece o som, as cores e nós, porque este momento é teu e tu podes chorá-lo.
E muito séria com os olhos quase a rebentar de lágrimas ela ficou, e eu sai do caminho que a fazia chegar até à sua mãe. A Matilde gritou, chorou e riu, contou as suas aventuras e segredou com ela, depois de tudo feito tirou do bolso o que tinha feito para lá deixar, era um desenho que continha cores vivas e alegres, era segundo ela "uma maneira de lembrar à mãe que as suas filhas estavam bem"
O Miguel colocou as flores que tinhamos trazido e muito baixinho disse:
- Não se preocupe, eu tomo conta dela e da pequena Matilde, prometo.
Hum, até parece que o Mundo ficou aliviado depois dessa frase, pois uma brisa suave e ao mesmo tempo forte, como um suspiro de alivio, surgiu, e os pássaros voltaram a voar e o sol a brilhar. Tinha acabado a visita que me atormentava tanto, estava na hora de regressar ao carro, a casa. A minha avó ia-nos olhando através do retrovisor à medida que nos ajeitávamos no banco - sim, a minha avó não foi ao cemitério, dizia que era errado fazê-lo pois era mãe do homem que pôs fim à vida da mulher que ali estava enterrada, mãe das suas netas- eu encostei a cabeça ao ombro dele e ele agarrou-me, olhei de baixo para cima para ele e ele veio-me com um sorriso, e eu voltei-lhe a retribuir o sorriso, voltei a dirigir o meu olhar para a paisagem que estava do outro lado da janela e adormeci.
* * *
Quando acordei, estava na cama, já tinha passado o dia em que fez um mês e hoje era o dia que fazia um mês e um dia, dia esse que foi iniciado pelo barulho da minha irmã a pintar outra vez a parede e a cantarolar, e com umas duas mensagens do Miguel a dar os bons dias e a dizer que me amava muito.
Respondi-lhe à mensagem e fui à cozinha, onde tudo tinha voltado à normalidade, onde parecia que aquele dia não tinha passado só de um sonho com acontecimentos de facto, reais. A Matilde veio a correr ter comigo e quase que me entornava os cereais para cima de mim e do sofá, mete o peluche no chão, ajeita o cabelo e diz:
- Óh mana, tenx um pejente a tua sequetária.
[Normalmente ela não fala desta maneira, mas hoje era o dia em que decidiu ser uma criança e por isso falava assim, por isso o que ela disse foi:
-Óh mana, tens um presente na tua secretária]
Sorriu e voltou para o sitio de onde veio a correr. Eu, levantei-me do sofá, e fui ver o que era, de facto era um presente de facto era dele, mas quando ia para o abrir, o telemóvel toca e sem antes de eu puder dizer alguma coisa ele diz:
- Espero que a Matilde te tenha dado o recado.
- Deu sim amor, mas ainda não o abri.
- Então abre tótó, estás à espera do quê? - pergunta ele de uma forma muito engraçada.
E durante o silêncio das nossas cordas vocais, eu abri-o, e aí deixou de haver silêncio, pois o cair das minhas lágrimas tornou-se banda sonora daquele momento.
- Já o viste? - disse ele
- Sim, mas não percebo porque me dás tantos presentes, tendo em conta que eu não te dei nenhum.
Com uma voz indignada ele responde.
- Achas que faço isto para me dares presentes? Para mim chega o sorriso ou o som dele quando os vês.
- Eu amo-te Miguel - acrescento.
- Ainda bem, porque eu também te amo e não faço tensões de te deixar.
-Ainda bem amor, és tudo.
- Tu também Filipa, mas agora tenho de ir, ligo-te daqui a pouco, até já.
- Até já Miguel.
Peguei no presente e levei-o até à cama, era uma pulseira com o nome dele e uma foto dele com a pulseira igual mas com o meu nome, tinha um texto muito bonito que acompanhava um anel que segundo ele era "amor, sei que o anel é de plástico, e sei que mereces melhor, na verdade é tirado das máquinas, mas era só para veres que uma simples e pobre coisa tem muito valor, eu amo-te"
Foi o ponto alto do dia, aquilo que me faltava para ser feliz.
Tinha perdido a mãe, mas ganhei o Miguel, e é verdade que não é a mesma coisa nem se compara, mas o que me conforta é que como a minha mãe me fazia feliz, ele também me faz, e isso já é muito para uma rapariga como eu.
Eram seis da tarde e o sol começou a pôr-se, tinha como espectadores eu e ele, e o verde das árvores e o azul alaranjado do céu, ele olha para mim, sorri e antes de ele inciar a sua frase eu digo:
- Agora é a minha vez, não fales e beija-me!
Solta um pequeno sorriso que rapidamente é apagado pelo meu toque, eu estava completa e naquele momento não precisava de mais nada, pois tinha tudo.
Naquele momento, Filipa, percebeu que existia felicidade mesmo depois de tudo, Filipa sabe que as cores são agora sete e não duas, e que mesmo que por momentos seja o preto e o branco, um dia as outras cores acabaram por aparecer, juntamente com tudo o que de bom pode haver. Filipa percebeu um mês depois que se acontece é por alguma razão e isso devolveu-lhe a paz que antes não conseguia encontrar.

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