12 de julho de 2012




Capitulo I …. Ella
Esta mulher sempre foi diferente, esta mulher sempre teve uma fraqueza, ela sempre se achou esquisita, e ela pôde confirmar isso, quando as coisas se complicavam.
Não é justo à sua memória dizer que ela foi sempre infeliz, afinal ninguém consegue levar uma vida inteira sem sorrir, sem sentir o que é a felicidade, mesmo que seja por breves momentos, breves segundos, e com ela, toda a vida de felicidade foram breves segundos, que depois dos momentos de tristeza, faziam com que ela ganhasse força e energia, para tudo o que viesse a seguir, pelo menos até alguém lhe roubar o sorriso de novo.
  Já não me lembro ao certo o dia, mas foi há mais ou menos um ano atrás, ela estava num dos seus momentos negros, que apesar de acharem que ela nunca os tinha, isto, era uma constante na solidão da sua noite, todos na sua casa estavam a dormir, e talvez a solidão se tenha virado contra ela. O som da música que ouvia acompanhavam a sua mão, tudo era dramaticamente harmonioso, as lágrimas escorriam rapidamente pelo rosto, umas atrás das outras, sua respiração ofegante, e continuamente neste desespero, a sua mão que possuía entre os dedos uma lâmina, raspava contra o seu braço. Ela estava a cortar-se. Perdidamente ela o fazia até sangrar e a sua dor ser libertada pelos rasgões que dividiam a primeira camada de pele da segunda.
  Ainda me custa lembrá-la assim, ainda me custa recordar todas as vezes que ela o fizera, era algo doente, mas que segundo ela “o único meio que libertava a sua dor sentida no peito, pelo sofrimento propositado no seu braço.”
 Nunca percebi bem o porquê, nunca percebi como uma dor aliviava a outra, nunca a percebi para ser sincera, pois ela era uma mulher diferente, apaixonada por aquilo que não conseguia ter, feliz pela felicidade dos outros, infeliz pela sua infelicidade.
Ela era…. Ela, com as marcas que lhe marcaram com as feridas que nunca sararam, com desgostos nunca ultrapassados e com lágrimas que nunca foram limpas.
  Apesar de todos os problemas com que era confrontada todos os dias, ela conseguia sorrir, até a uma certa altura da sua vida, em que o sorriso deixou de ter aquele sentido, porque contar piadas e sorrir é bem diferente de alguém se tornar o motivo desse sorriso. A sensação é diferente, a força que isso dá é melhor, a energia e a coragem de enfrentar as coisas fáceis e difíceis do dia-a-dia era outra.
Ela sentia-se como se os seus olhos tivessem sido vendados, ela sentia-se sozinha, perdida, invisível, ela sentia-se solitária no seu mundo a preto e branco, onde ninguém soube dar cor.
Sim, seus olhos eram azuis, seu rosto brilhante, sim sua pele era branca e seus cabelos castanhos, mas nem a sua cor natural dava cor ao seu mundo!
A dor sentida pela aquela mulher era demasiada, era um acumular de anos de sofrimento num só corpo, e ela, fraca, sensível, desiludida e esquecida, fez com que o seu fim, não fosse outro senão a Morte!
Mulher de negro amou, mulher de negro ia tentando ser amada, mas a mulher de negro, por muito que fizesse nunca seria a mulher feliz!
“Por muito que suplicasse ninguém me ajudava,
Por muito que gritasse, ninguém ouvia,
Por muito que fizesse ninguém ligava,
E eu apenas sofria sozinha!”
Os seus sentimentos eram profundos e suas palavras comovedoras, os seus olhos, esses, eram cartão-de-visita à sua destruída alma, mas o sorriso que agora estava apagado do seu significado e uso, era característica da sua face.
Face arrefecida, não só de frieza, mas também de lágrimas, um corpo quente, não só pelo seu coração ainda a bater mas também porque era possuído por uma paixão calorosa e um amor incondicional que nunca teve hipótese de partilhar, pelo menos até ao dia.
Só.
Triste.
Infeliz.
Cortada.
Recortada.
Colada.
Fria.
Morta.

Este foi o seu destino, este foi o seu último ato, dramático e penoso, tal como a história portuguesa manda, tão bem representado por Pedro e Inês de Portugal, a única diferença é que ela nem depois de morta foi corada rainha

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