Estava ela na sua casa e ele chegou. Era óbvio o medo que lhe estrepassava-lhe aquele humilde olhar, e nele aquele olhar de fúria e de bebida, e ela ouviu a chave a entrar na fechadura e o seu coração começou a bater a mil, pois sabia o que lhe esperava ... Entre suas lágrimas esperava ao canto da sala que ele chegasse e que mais uma vez aquelas mãos zangadas dele lhe marcassem o corpo como se não houvesse amanhã ... Abriu a porta e foi a correr para a direcção dela, ela fechou os olhos e todo o seu corpo tentou desligar-se para não sentir a dor das suas chapadas e dos seus pontapés, mas era impossivel, assim que ele agarrou nela para a levar para um sitio onde conseguisse espancá-la em melhores condições milhares de lágrimas lhe escorreram pelo rosto ... Ela nunca se vai esquecer daquela mão fria que lhe agarrou o braço e lhe gelou o corpo de uma maneira única. E ele, continuava, chapada após chapada, pontapé atrás de pontapé ... Fazia aquilo como se fosse um boneco, um autêntico saco de boxe, era impressionante, mas mais impressionante ainda era ver aquele mulher ali deitada toda esmurrada e a não responder a nenhum estimulo dele, não se levantava, não se virava contra ele, não chorava nem gritava com as dores ... Uma boneca de trapos era o que ela era!
E eu pergunto-me, mas quando é que ela se ergue? Quando é que ela volta a si e vinga-se de tudo o que aquele monstro lhe fez?
Mas ela sabia que tinha de mudar qualquer coisa, ela tinha de fazer qualquer coisa, era obrigada a isso. Mas como? Pensava ela, ele era mais forte do que ela, e ela tinha medo dele ... Então ela pensou em qualquer coisa, e no dia seguinte ela estava pronta, ele saiu e ela só tinha uma hora, uma hora para arrumar as suas poucas coisas, arrumou tudo há balda pois só queria sair dali o mais rápido possivel, então pegou na sua chave e na sua pequena mala e saiu porta a fora, como se não hoouvesse amanhã ... Correu a caminho da sua liberdade largando pelo caminho tudo o que de mau passou, mas ela sabia que tinha de voltar, ela sabia que tinha de ser ela a acabar com ele, porque de outra maneira ele iria andar á solta a fazer o mesmo a outras mulheres ou até mesmo ir atrás dela. Então enquanto pensava em algo que poderia fazer para acabar com ele, dormiu ao relento durante um mês, no mesmo mês em que foi tudo inundado pelas chuvas torrenciais, aprendeu a parte feia da vida boa, e no fim da última noite uma ideia brilhante lhe chegou á ideia ... Sabe o que tem de fazer e nada a vai impedir. Então no dia seguinte, ela guardou tudo o que tinha mas desta vez como deve de ser, e dirigiu-se para a sua antiga casa, o seu pior medo, e a sua prisão durante anos ... Aguardou escondida até á hora em que sabia que ele estava dentro de casa (a hora em que normalmente vinha do café, bêbado pronto a espancá-la) abriu a porta de baixo com a sua chave, e subiu até ao seu andar, e aí tocou a campanhia, ele abriu e assim que percebeu que era ela depois de breves segundos a olhar-lhe fixamente nos olhos puxou-a para dentro de casa e mandou-a contra a parede, ela fechou os olhos e aguentou, e depois de muitos insultos verbais ela simplesmente diz : "Amor, meu lindo amor, por ti me apaixonei e prometi te acompanhar até ao fim das nossas vidas, por isso assim vou fazê-lo" e assim que acaba de lhe dizer estas últimas palavras, ele ri-se, pensando que ela estava a voltar para ele e a sujeitar-se a mais anos e anos de pancada, mas não ... Ela solta uma lágrima, e assim que ela cai no chão, ela faz-lhe um rasgão na mão, e de seguida espeta-lhe a faca bem direccionado no coração. Ele olha para ela e ela simplesmente reage com um sorriso. Ele caí, e ela vai-se embora, com a sua pequena mala. E eu volto a perguntar, para onde é que ela vai agora? O que é que vai fazer? Mas rapidamente ela me responde a isso assim que chega á porta da policia, olha para o céu e entra, e pede aos policias que a prendam pois ela acabou de matar uma pessoa. Os policias pediram-lhe para contar a história e ela contou promenor a promenor, e eles disseram-lhe que ela não ia ser presa, pois, consideravam auto-defesa, mas ela diz-lhes que não foi, foi mais uma vingança e merece ser castigada, para além disso, ela não tem para onde ir ... Mas os policias continuavam na sua opinião e disseram-lhe que tinham o sitio ideal para ela ... Então levaram-na para o carro e foram até a uma casa de acolhimento de vitimas de violência doméstica, onde ficou com a sua pequena mala, a cuidar das mágoas e feridas que ficaram do passado, pois todos se lembram do agressor, mas assim que ele morre esquecem-se da vitima com as feridas fisicas e psicológicas. Viveu o resto da vida assim, onde foi feliz, e onde mais tarde teve condições e capacidade para erguer a sua própria casa e adoptar um menino. Não poderia ter havido um final melhor do que este, sem dúvida, mas há que lembrar, que nem todas as histórias acabam assim, por isso há que denunciar, há que falar, só assim se poderá acabar com isto :D
Felicidades!
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